Posted: 5.11.07 by Glauber
Ataide in Marcadores: Psicanálise
O texto que se segue é, em sua maior parte, um
resumo que fiz dos pontos que considerei mais importantes do livro “Édipo – O
complexo do qual nenhuma criança escapa”, do autor J.-D. Nasio, Jorge Zahar
Editor.
O Complexo de Édipo é considerado a pedra fundamental do edifício
psicanalítico. Seu nome foi retirado do mito grego do rei Édipo, que ao nascer
recebeu um oráculo que dizia que ele mataria seu próprio pai e se casaria com a
sua mãe. Mesmo sendo tomadas todas as providências para que a profecia não se
cumprisse, ele acabou matando o seu pai (sem saber quem era) e casando-se e
tendo um filho com a sua própria mãe (só descobrindo posteriormente que era sua
mãe).
Mas de onde e por que surgiu esse conceito na psicanálise? Segundo J.-D. Nasio,
todo conceito psicanalítico surge para explicar um problema encontrado na
prática clínica. Assim, perguntamos: de qual problema, então, o Complexo de
Édipo é solução? A resposta é: do problema de como se forma a nossa sexualidade
e de como alguém se torna neurótico.
O Complexo de Édipo se desenvolve de forma diferente nos meninos e nas meninas.
Vamos expor, primeiramente, de como ele se dá nos meninos.
O Complexo de Édipo nos meninos
A partir dos três anos de idade, os meninos focalizam
o seu prazer sobre o pênis. Nessa idade, o pênis se torna a parte do corpo mais
rica em sensações e se impõe como a zona erógena dominante.
Porém, aos quatro anos, o pênis não é apenas o órgão mais rico em sensações. É
também o objeto mais amado e o que reclama mais atenções. Assim, tal culto ao
pênis, característico dessa idade, o eleva ao nível de símbolo de poder e de
virilidade. Quando o pênis se torna, aos olhos de todos - meninos e meninas - o
representante do desejo, ele recebe o nome de FALO.
O falo não é o pênis enquanto órgão. E um pênis fantasiado, idealizado, símbolo
da onipotência e do seu avesso.
Excitado sexualmente, o menino de quatro anos vê surgir dentro de si uma força
misteriosa, até então desconhecida: o impulso de se dirigir ao outro, ou, mais
exatamente, de se dirigir aos seus pais - aos corpos deles - para ali encontrar
prazer. Mas que desejo é esse? É um desejo sexual.
Mas cabe aqui desfazer um mal entendido muito comum. Na psicanálise, tudo o que
é genital é sexual, mas nem tudo o que é sexual é genital. Sendo assim,
o desejo sexual do menino em direção a seus pais não é um desejo exclusivamente
genital pelo fato de ser sexual.
Os três movimentos fundadores desse desejo do menino são: desejo de possuir o
corpo do outro, desejo de ser possuído e desejo de suprimir.
Ora, sem ser possível atingir a satisfação desses três desejos incestuosos -
obter o gozo absoluto de possuir o corpo da mãe; ser possuído pelo pai (ser sua
coisa e fazê-lo gozar); e o gozo absoluto de suprimir o pai - o menino cria
fantasias que lhe dão prazer ou angústia, mas que, de toda forma, satisfazem
imaginariamente seus loucos desejos.
Mas o que é uma fantasia? Uma fantasia é uma cena imaginária, geralmente
consciente, que propicia consolo à criança. Ela tem como função substituir uma
ação ideal que baixa a tensão do desejo e propicia prazer.
Nessa idade, porém, o menino tem uma visão do corpo nu feminino, o qual é desprovido
de pênis. Ele, que antes pensava que todas as pessoas no mundo possuíam um
falo, agora percebe que existem seres castrados, sem pênis. Então, surgem as
fantasias de angústia, pois, se existem seres que não possuem pênis, ele também
pode perder o seu. Essas fantasias de angústia são: o medo de ser castrado pelo
pai repressor, o medo de ser castrado pelo pai sedutor e o medo de ser castrado
pelo pai rival.
Dessa angústia de castração vem a resolução da crise edipiana, que consiste em
três etapas: 1) recalcamento dos desejos; 2) renúncia aos pais como objeto de
desejo e 3) incorporação dos pais como objeto de identificação.
Ele deve fazer uma escolha: ou salva o seu falo-pênis ou fica com a sua mãe.
Por causa do medo de perder seu falo-pênis, ele renuncia aos pais como objetos
sexuais e recalca os seus desejos inconscientes.
Duas conseqüências decisivas ocorrem na estruturação da personalidade do menino
ao fim do Complexo de Édipo: o surgimento de uma nova instância psíquica, o
superego, e a confirmação de uma identidade sexual nascida por volta dos dois
anos de idade e afirmada mais solidamente após o fim da puberdade.
O superego é instituído devido a um gesto psíquico surpreendente: o menino, ao
renunciar aos pais como objeto sexual, os incorpora como objetos do seu eu. Na
impossibilidade de tê-los como parceiros sexuais, promete inconscientemente ser
como eles em suas ambições, fraquezas e ideais. Aqui vale lembrar-nos de
Shakespeare: “Com o tempo você descobre que há muito mais do seus pais em você
do que você supunha”.
A identidade sexual é instalada progressivamente pelo seu contexto familiar,
social e lingüístico, assim como pelas sensações erógenas que emanam de seu
genital e a atração pelo pai de sexo oposto. Antes do Édipo, a criança ainda
não sabe dizer se é menino ou menina, que o pai é um homem e a mãe uma mulher.
É só na puberdade que essa identidade vai se consolidar.
O Complexo de Édipo nas
meninas
O Complexo de Édipo se desenvolve de forma um pouco
diferente nas meninas. Elas passam primeiramente por uma fase pré-edipiana. Ao
passo em que um menino de quatro anos tem três desejos incestuosos - de
possuir, de ser possuído e de suprimir o outro -, a menina tem apenas um: o de
possuir a mãe.
Neste período, ela julga deter, assim como um menino, um falo, e se sente
onipotente. Mas um evento crucial ofuscará o orgulho da garotinha: ela verá o
corpo nu masculino, dotado de um pênis, e verá que o menino possui algo que ela
não tem. A reação da menina é de decepção: "Ele tem algo que eu não
tenho!". Até então, fiava-se em suas sensações de poder vaginal e
clitoridiano, que a confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu
o pênis, duvida de suas sensações, e julga que o poder está no corpo do outro,
no sexo masculino. A menina vê-se assim dolorosamente despossuída, pois o cetro
da força não é mais encarnado por suas sensações erógenas, mas pelo órgão
visível do menino.
Aqui, então, ela sofre com a dor de ter sido privada do falo. Enquanto o menino
sente a angústia de castração, a menina vive a dor de uma
privação, de uma perda. Lembrem-se que o que levou o menino à resolução do
Édipo foi a angústia de castração, isso é, o medo de perder o falo. Mas a
menina constata que ela não tem o falo, isso é, não tem nada a perder. Enquanto
o menino sofre uma angústia, a menina sofre uma dor real - uma dor de ter sido
privada de algo que ela julgava possuir. Ela sente-se então enganada. Mas quem
teria mentido pra ela dizendo-lhe que ela possuía um falo todo-poderoso, senão
a sua mãe? Sim, a onipotente mãe mentiu a ela sofre o falo, um falo que ela
mesma também não possui. Uma mãe desprovida de falo, assim como ela, e que
merece agora apenas desprezo.
É nesse exato momento que a menina, despeitada, esquiva-se da mãe, e em sua
solidão, fica furiosa por ter sido privada e enganada.
Ao constatar o falo no menino, com seu orgulho ferido, ela sofre, sente-se
lesada em seu amor-próprio e reivindica o que acha que lhe é de direito:
"Quero esse falo de volta e o terei nem que o tenha que arrancar do
menino!". A menina é então presa de um sentimento que a psicanálise chama
de "inveja do pênis", mas que o autor J.D.-Nasio prefere chamar de
"inveja do falo". Segundo Nasio, esse termo enfatiza melhor o fato de
que a menina inveja não o órgão peniano do menino, mas sim o símbolo de
potência por ele encarnado. Uma coisa é invejar o falo, outra é desejar o pênis
de um homem.
Vale ressaltar que inveja não é desejo, e que para que uma menina venha a
desejar um pênis, é necessário primeiro se tornar mulher, isso é, resolver o
Édipo após sexualizar e dessexualizar o seu pai.
Agora entra em cena a figura do pai, o grande detentor do falo. É quando a menininha
magoada e sempre ciumenta se volta para ele para lhe reivindicar seu poder e
sua potência. Quer ser tão forte quanto o pai e ter de volta aquilo que perdeu.
É então que o pai lhe fala: "Não, nunca lhe darei o falo, pois ele
pertence à sua mãe!". Claro que nenhum pai diz isso à filha; esse pai é um
pai caricatural, fantasiado. Se um pai tivesse que dizer algo de verdade a um
pedido desses, ele diria apenas o seguinte: "Não posso lhe dar o falo,
simplesmente porque esse falo não existe! O falo que você me pede é um sonho,
uma quimera de criança!".
Essa recusa do pai é recebida pela filha como uma bofetada que põe fim a toda
esperança de um dia possuir o mítico falo. Ela acaba de compreender que nunca o
terá, mas mesmo assim não se resigna. Ao contrário, lança-se agora com todas as
forças nos braços do pai não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela
mesma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o falo, mas agora ela quer
ir além, ela quer ser o falo, ser a coisa do pai. Isso é, ela quer ser o
próprio falo, a favorita do pai.
Em virtude do não, da primeira recusa paterna, surge agora o desejo
incestuoso de ser possuída por ele, de ser o falo do pai. Quando era
invejosa, adotava uma atitude masculina; agora que é desejante, adota uma
postura feminina. Assim, ao sexualizar o pai, a menina entra efetivamente no
Édipo. Por sinal, a fantasia de prazer que melhor ilustra o desejo edipiano de
ser possuída pelo pai é geralmente expressa pela frase: "Quando crescer,
vou me casar com o papai".
Essa entrada no Édipo é também o momento em que a mãe, após ter sido afastada,
volta à cena e fascina a filha por sua graça e feminilidade. A menina então,
espontaneamente, aproxima-se e identifica-se com a mãe. O comportamento
edipiano da menina inspira-se completamente no ideal feminino encarnado pela
mãe, na observação e no aprendizado de como seduzir um homem. É nessa fase que
as meninas adoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando. Mas é aqui que
a mãe é vista, além de como um ideal, como uma grande rival. Assim, realiza-se
o primeiro movimento de identificação da filha com o desejo da mãe: o de ser a
mulher do homem amado e dar-lhe um filho.
Mas da mesma forma que o pai se recusou a dar o falo à filha, ele agora recusa
tomá-la como objeto sexual e a considerá-la seu falo. Depois que a primeira
recusa - "Não lhe darei meu falo!" - permitiu à menina se reaproximar
da mãe e com ela identificar-se, a segunda - "Não a quero como
mulher!" leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai.
Ocorre aqui então um fenômeno curioso, mas extremamente saudável no Édipo
feminino: uma vez que a menina não pode ser o objeto sexual do pai, ela quer
ser então como ele. "Já que você não quer saber de mim como mulher, então
vou ser como você!". A menina aceita recalcar o seu desejo de ser possuída
pelo pai, sem com isso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano
resigna-se a perder a mãe por covardia, a menina, por sua vez, que nada mais
tem a perder, obstina-se audaciosamente a se apoderar do pai. Ela mata seu pai
fantasiado, mas o ressuscita como modelo de identificação. Identificada com os
traços masculinos do pai após ter se identificado com os traços femininos da
mãe, a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agora para os futuros
parceiros de sua vida como mulher.
Notem que as duas identificações constitutivas da mulher - identificação com a
feminilidade da mãe e com a virilidade do pai - foram desencadeadas por duas
recusas do pai: recusa de dar o falo à filha e recusa de tomá-la como falo.
Glauber Ataide